Hakien atravessou os Arcos de Kara Kuera.
Eram blocos gigantescos decorados em runas que sustentavam os túneis que ligavam as diferentes favelas no mesmo nível. As monumentais pedras estavam rachadas, e quando os bondinhos passavam, o firmamento de pedra chovia poeira.
Todos sabiam que era uma questão de tempo até os arcos desabarem.
Outros já haviam se partido, levando em seu caminho centenas de Ratos.
Ninguém se importa. E, em qualquer outro dia, eu também não iria me importar.
Um suor frio desceu pelas costas de Hakien. Mais que um pressentimento, era uma convicção irracional que dizia, Eu não vou chegar ao final.
Milhares de vezes ele fez esse caminho, o desprezado caminho de sua rotina.
Em muitos dias ele teria agradecido um final rápido, para uma vida lenta e sem importância. Porém hoje não era apenas mais um dia, hoje seria seu último dia.
Seu último dia nos arcos. No túnel. Na sua voluntária escravidão.
Quanto mais ele queria o que lhe esperava no final do túnel, mais certeza ele tinha que sua estória terminaria aqui.
Que justo hoje, no dia mais importante da sua vida, tudo lhe seria negado. Todo o seu trabalho.
Toda a sua espera.
Tudo que suportou... tudo em vão.
Hakien quis correr. Talvez, se corresse, pudesse enganar seu destino.
Mas seu orgulho segurou seus passos. Mesmo com o túnel vazio, mesmo sem ninguém para testemunhar seu pânico, correr seria uma admissão.
Seria a prova que no fundo, ele era igual a todos os outros Ratos.
Eu prefiro morrer.
Não era verdade. Mesmo assim ele andou, na certeza de seu fim.
Para seu alívio, surpresa e vergonha, os Arcos de Kara Kuera não desabaram.
Ele alcançou o Eixo, diante dele a Feira de Mangaio, na circunferência das paredes de pedra que eram a entrada da Estação das Gaiolas.
A feira que normalmente era um caos de vozes e cheiros, hoje estava praticamente vazia, muitas das barracas abandonadas.
Da murada aberta, uma fila de Ratos transbordava da estação até Mangaio.
Eram Ratos de todos os sexos e idades, velhos e crianças, famílias, casais, párias, estranhos antissociais. Em suas mãos martelos, vassouras, enxadas, facas e até mesmo algumas espadas, qualquer objeto com a capacidade de matar.
À primeira vista eles não tinham nada em comum, figuras aleatórias que pareciam ter sido sorteadas para ficar na fila. Mas nos olhos inquietos, Hakien reconheceu algo intimamente familiar.
Fome.
Não de comida, mas de vida.
A fome de quem espera.
A fome de quem nunca teve.
A fome de quem precisa ter.
Hakien ignorou a fila e entrou na Estação.
O espaço que se abria à sua frente era uma rotunda colossal, coroada por um domo de mosaicos negros e brancos que se entrelaçavam em formas fluidas. Ali, os Orkshas ganhavam vida, divididos entre luz e sombra.
Morserus visual canon: dark fantasy anthropomorphic world with no humans, cinematic stylized 3D realism, high-end CGI character portrait quality, semi-photorealistic fantasy characters with predominantly humanoid anatomy and only selective species traits, correct animal nose and animal ears, no human ears, no tails, no whiskers, slightly stylized youthful facial proportions, slightly enlarged highly expressive eyes, realistic skin and hair, detailed PBR materials, dramatic highly saturated gothic lighting, cinematic color grading, soft volumetric light, shallow depth of field, cinematic background depth, intimate close-up or extreme close-up framing when emotion is central, serious treatment of young characters, polished AAA game cinematic look, clean image, no artificial grain, no speckled noise, no dust haze, no gritty microtexture, no text, no watermark. Follow the attached references exactly: Estacao_das_Gaiolas_Conceito.png is the primary reference for the architecture, Planta_Estacao_das_Gaiolas.png for the layout, DETALHE_01_CUPULA_ORKSHAS.png for the dome, DETALHE_03_BILHETERIAS_TATUADORES.png for the central island, DETALHE_02_ELEVADOR_EMBUTIDO.png for the elevator doors, 17_Grupo_Extras_Fila.png for the crowd, and Hakien_JOVEM_REF.png (back view) for Hakien. Scene: the Station of the Cages, seen from the entrance that comes in from the market. A colossal circular rotunda carved out of solid rock under a closed dome with gothic stone ribs. The dome is covered in a fluid black-and-white mosaic where two vast intertwined figures, one pale and one dark, could be dancing or fighting; here they read as locked in combat. Hidden in the pattern, barely perceptible, a pale protective curve suggests the mask of Love and a dark receding void suggests the mask of Abandonment; they are not literal faces. Around the wall, a ring of tall gothic doors of blackened riveted iron set flush into the rock, thirty-three of them separated by stone pillars, each with a small metal plaque bearing a different symbol (a skull, a black mushroom, a flame, a flower, a number). In the center, a circular island of ticket booths with iron grilles and tattered red-and-black banners; beside it, tattoo artists at small wooden tables marking the forearms of travelers. Concentric rope-and-post queue rings spiral around the island, packed with the waiting crowd: rat-folk of every age and kind, elderly women in shawls, families with small children, gaunt men, a red-haired mother, all in patched earth-toned clothes, clutching humble weapons, hammers, brooms, hoes, kitchen knives and a few old swords. Their faces show the same restless hunger, not for food but for a life. In the lower center foreground, seen from behind, Hakien, a lean sixteen-year-old rat youth with messy white hair and large pink rat ears, his single tattered black cape hiding his arms, walks past the end of the queue without joining it; a few heads in the line turn to watch him. The station is the subject; Hakien is a small figure that gives the scale. Emotion: monumental, solemn, tense, a temple of departures. Lighting: warm golden candle lanterns on the stone and the booths against cold blue-grey shadow in the dome and between the doors, restrained red from the banners. No hanging chains, no cages descending from the ceiling, no open shafts, no oculus, no sky. Framing: slightly elevated wide view from the entrance, the central island on the vertical axis and the dome filling the upper third. Vertical 3:4 (1536 x 2048), centered composition with the rotunda wall continuing on both sides so the image can later be extended to 16:9.
Se dançavam ou lutavam entre si, apenas os olhos de quem os contemplava poderiam dizer. Num dia triste, eles lutavam, já num dia feliz eles bailavam em perfeita harmonia.
Quando criança ele tinha visto os Orkshas dançando, mas no dia que sua mãe subiu a gaiola, desde então, os Orkshas estavam sempre em guerra.
As bilheterias ficavam abaixo da abóbada, ao lado dos tatuadores. Na perfeita circunferência de trinta e três gaiolas com placas de diferentes símbolos, em cada qual cabiam cem Ratos, mas quando desciam eram centenas e quando subiam era em unidades.
Hakien baixou os olhos e seguiu o caminho de sua rotina.
"Tá querendo furar a fila, pivete?"
O Rato que falou era mais baixo, com a cabeça batendo no seu ombro. Porém era muito mais musculoso, mais velho, com uma expressão de ressentimento e desgosto. Sua barba negra era longa, seu cabelo era curto, seu avental de açougueiro estava sujo de sangue. Em seu punho, um cutelo descomunal.
"Me deixa em paz." Hakien falou sem ameaça, passou pelo Rato Raivoso sem levantar os olhos ou atrasar, ou apressar seus passos lentos.
O Rato Raivoso pegou na capa de Hakien. Abriu o focinho para dizer algo, mas em vez de palavras, gritou em alucinante dor.
Hakien estava com sua faca na mão esquerda. Uma linha de sangue corria pela lâmina, enquanto um pequeno sorriso lhe corria os lábios.
O Rato Raivoso fitava o corte no braço, não no que segurava o cutelo, mas no que puxara a capa. "Você me cortou?" Era medo, e não raiva, em sua voz.
Da fila, outros quatro Ratos saíram. Um alto e magro, outro gordo e feio, outro grande com um rosto estúpido, e por fim um jovem com olhos esbugalhados. Todos vestidos com aventais, suas armas eram espetos e martelos de carne.

"Você me cortou, seu pivete." O Rato Raivoso repetiu, desta vez com ultraje e ódio em sua voz. "Quem mexe comigo, mexe com minha ninhada."
Os cinco Ratos cercaram Hakien. A plateia na fila sorria, agradecida pelo espetáculo que aparecera para aliviar o tédio da espera.
Os Ratos Açougueiros estavam em posturas de combate, curvados com suas armas (utensílios) expostas. Hakien, entretanto, mantinha-se erguido, com sua faca baixa, apenas os frios olhos cinza percorrendo o círculo de ameaças.
"Não foi de dor que você gritou." Hakien falou calmo. "A dor vem depois. É uma sensação estranha, não é?"
"Tá maluco, pivete?" O Rato Raivoso falou alto, para todos ouvirem, mas seus olhos corriam para a faca, e seu cutelo tremia em sua mão. "Tá se achando? Tá podendo encarar cinco contra um?"
"Eu estava falando de mim." Hakien levantou sua capa e mostrou três cicatrizes em seu abdômen. "Eu já fui esfaqueado."
"O pivete é ruim da ideia." O Rato de olhos esbugalhados falou. "Deixa ele ralar, que matar doido dá azar."
A plateia vaiou. "Vai deixar barato?" falou um. "Vão arregar pra cria?" falou outro. "Pode broxar não, enfia no moleque senão vai pegar mal."
"Pede desculpas." O Rato Gordo segurando um martelo de carne falou. "Pede desculpas e vai pro final da fila, que a gente fecha sua conta."
"Fechar a conta?" O Rato Raivoso rugiu num ultraje. "A dívida dele é de sangue."
"Eu não quero matar ninguém." Falou o Rato de olhos esbugalhados. "Deixa ele se desculpar."
"Não." O Rato Raivoso gritou, e a plateia vibrou. "Pelo menos uma surra ele tem que levar."
"Então dá a surra." O Rato Gordo esbravejou sem paciência. "Vai lá e cobra o que é seu." A plateia vibrou.
Hakien fitou o Rato Raivoso, levantou sutilmente sua sobrancelha, como quem diz, O que você vai fazer agora?
O Rato Raivoso firmou seu cutelo, deu um passo à frente, olhou para a faca, para a gota de seu sangue que naquele momento caía ao chão.
"Qual o seu nome, pivete?"
"Por que você não sai do meu caminho?"
Hakien falou cansado. O sino da vigília ainda não tinha tocado. Ele deveria estar dormindo.
Mas não, de todos os dias, hoje tudo acontecia de uma vez. Tudo e todos estavam contra ele, juntos formando e habitando sua prisão.
"Por que você não me deixa em paz?"
"Você me deve." O Rato Raivoso mostrou o braço cortado. "Primeiro eu te dou a surra, depois eu coloco seu nome no livro dos devedores."
A plateia festejou, e os Ratos ao redor de Hakien sorriam e acenaram eufóricos.
"Eu tirei sangue." Hakien deu de ombros. "Mas você me tocou com uma lâmina nua. Eu estou no meu direito de responder à altura."
A plateia vibrou ainda mais, agora vaiavam e assobiavam contra o Rato Raivoso. Sua torcida era fiel apenas à percepção de qual era o mais forte.
"O Orksha do Orgulho prega que a injustiça sem resposta é a justiça do mais forte." O Rato Grande e feio falou com sua voz rouca. "O Orksha da Justiça fala que aquele que segura a faca..."
"Cala a boca, seu cretino." O Rato Raivoso rugiu para o maior. "Eu não fiz nenhum desafio, ele é um pivete furando a fila, eu só queria colocar ele no seu lugar."
"Não faz diferença, faz?" Hakien falou de volta. "Agora é um duelo."
Os Ratos Açougueiros ao redor de Hakien baixaram suas armas, olhando entre si em confusão e incerteza.
"Você é sangue ruim." O Rato Raivoso apontou o dedo do braço cortado para o focinho de Hakien. "Você se acha esperto, pivete? Quer voltar todos contra mim?" Ele cuspiu no chão em frente à fila. "Vocês são lixo, ele não tomou o que é meu, ele tomou o lugar de todos aqui, e se ele achar o bilhete? E se o seu lugar na fila for o seu lugar na vida?" Ele se virou para os amigos de trabalho. "Vocês largaram o trabalho, estão dispostos a arriscar suas vidas, então, seus cretinos, a luta não começa lá embaixo, a luta começa aqui e agora."
Ele se virou de novo para Hakien. "Ele não é meu inimigo. É inimigo de todo Rato que respira."
Num piscar de olhos, a plateia se voltou contra Hakien e agora urrava para o Rato Raivoso, desta vez não era apenas diversão e euforia, eles agora tinham ódio e ressentimento no coletivo de sua voz.
Alguns saíram da fila, com suas armas humildes eles se juntaram ao círculo ao redor de Hakien. O que era para ser um duelo, estava para se transformar num linchamento.
"Tá pronto para a surra, pivete?" O Rato Raivoso falou não mais com raiva, mas sim com alegria e prazer, pela primeira vez, ele parecia genuinamente feliz.
Hakien olhou para as dezenas de Ratos, para todos aqueles que mesmo sem lhe conhecer, já o tinham acolhido como inimigo. Parecia trágico, mas era na verdade uma grande piada.
Hakien riu, riu com gosto e emoção, riu tanto que o pressentimento vazio em seu peito quase desapareceu, sim, seu mundo queria seu fim, mas ao mesmo tempo eles eram estúpidos demais para conseguir quaisquer que fossem suas vontades.
"Do que você está rindo, pivete?" O Rato Raivoso gritou, agora sem alegria.
Hakien abanou a cabeça, colocou sua faca de volta nas costas.
"Eu não estou na fila." Ele olhou para a gaiola vazia da caveira, à direita. "Pouco me importa o seu Bilhete Dourado."
O sentimento de todos foi de surpresa e confusão.
"Não, ele está mentindo." O Rato Raivoso falou para todos ao seu redor. "Ele está tentando escapar sem pagar o que deve."
"Olha o braço dele." Falou o Rato de olhos esbugalhados.
Hakien levantou o antebraço, mostrando na parte interna as diferentes tatuagens. Pequenas tatuagens na forma de círculos ou hexágonos, cada qual com um símbolo, uma caveira, uma chama, uma flor, o número 13, e um X.
"Ele é um gaioleiro." O Rato Gordo falou colocando a mão sobre o ombro do amigo. "Só um órfão gaioleiro."
A plateia se dispersou, e todos voltaram ao seu lugar na fila, insatisfeitos e entediados, novamente à espera de sua vez. Os açougueiros retornaram lentos, puxando assunto entre si, evitando ver e ser visto.
O Rato Raivoso permaneceu bloqueando o caminho, mas Hakien passou como se ele já estivesse indo embora.
Ratos da fila se amontoaram dentro da gaiola com o símbolo de um cogumelo negro, cabiam cem, mas quase duzentos se amontoavam uns sobre os outros.
Na gaiola ao lado, com o símbolo de uma caveira, um velho Rato de óculos grossos era o condutor, com suas mãos magras nas alavancas enferrujadas.
"Ninguém veio trabalhar hoje. O Ossuário vai estar vazio." O Velho falou com um sorriso sem dentes. "Mas você nunca falta, né, menino?"
O primeiro sino da vigília tocou.
O Velho cansou de esperar pela resposta e com um girar da manivela fechou as grades hidráulicas da gaiola industrial.
O Rato Raivoso correu até seu focinho ficar entre as grades. "Você vai pagar. Um dia vem a conta da sua dívida de sangue."
"Eu pago." Hakien respondeu na profundidade clara de seus olhos cinzas. "Eu pago todos os dias."
A gaiola começou a descer, o Rato Raivoso queria dizer algo, mas em seu focinho aberto, nenhuma palavra foi proferida.
"Boa sorte." Hakien deu um leve aceno. "Eu espero que você encontre o que merece."
A gaiola desceu, se perdendo nas profundezas escuras.
