O Pináculo de Schadenmor
Morserus
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O Pináculo de Schadenmor

25 jovens. 25 desejos. 1 vencedor.

Que escolha resta a quem não tem esperança?

Preso nas profundezas de Kazil, o jovem Rato Hakien não pode pagar pela passagem à superfície. Um Bilhete Dourado pode levá-lo ao Pináculo de Schadenmor, onde jovens arriscam a vida pelo Livro dos Desejos.

Mas a que preço?

Comece pelo prólogo
O Menino Rato, pequeno e de cabelos brancos, sozinho no redemoinho de névoa negra.A máscara colossal de madeira branca, coroada de flores murchas, surge da névoa sobre o Menino Rato.A silhueta de sombras, de orelhas aculeadas e asas escuras, estende o Bilhete Dourado.Hakien sozinho na escuridão que se parte, enquanto os tambores dos Orkshas não param.Hakien saindo do seu buraco na rocha, à beira da fissura abissal, diante da favela de pedra.O baile dos Orkshas: milhares de Ratos pintados sob as estalactites e o Roda-Morta no trono, com a máscara da Euforia.A jovem Rata de cabelos dourados segura o braço de Hakien na borda da festa.Hakien vai embora sozinho, e atrás dele a grandiosidade da caverna, a favela e milhares de Ratos.À frente da fila, os cinco açougueiros se voltam para Hakien: os três centrais o encaram com hostilidade, o aprendiz permanece apreensivo e o grandalhão conserva o olhar sereno.

Índice

  1. Prólogo12 min de leitura
  2. Capítulo 17 min de leitura
  3. Capítulo 211 min de leitura
  4. Capítulo 3em breve
O Pináculo de Schadenmor

Prólogo

12 min de leitura

O Menino Rato, pequeno e de cabelos brancos, sozinho no redemoinho de névoa negra.

O Menino Rato franziu o focinho. Mantinha o semblante sério e a postura firme. Os olhos cinza gelo radiavam orgulho, embora uma lágrima solitária descesse pelo rosto de apenas sete anos.

"Se você não me ajudar, ela vai embora." Ele falou com a voz amarga. "Sem ela, eu morro."

Pequeno, de pelos pálidos e cabelos brancos, ele se encontrava no âmago de névoas negras que rodopiavam ao seu redor como um redemoinho de escuridão. Ao longe, fazia-se notar o sussurro tênue de tambores.

"Você vai viver, pequeno Hakien."

A voz que atravessou as trevas era madura e feminina. Suas palavras lentas transbordavam um afeto cansado.

"Vai viver primeiro apesar da dor. Depois... vai viver por ela."

"Eu não quero", respondeu Hakien, agressivo. "Eu quero que você a faça ficar. Você é uma deusa. Você tem o poder de me salvar."

Uma máscara colossal emergiu da névoa. Era esculpida em madeira branca, de bordas arredondadas e coberta por raízes negras. A máscara deusa sorria pelo corte oco de seus lábios. Acima dos olhos vazios, pétalas coloridas teciam uma coroa de flores murchas.

"Eu sou a Esperança", disse a máscara deusa. "Sou a semente do seu agora. Alimente-me, adore-me, siga-me... e florescerei na eternidade de todos os dias que virão."

A máscara colossal de madeira branca, coroada de flores murchas, surge da névoa sobre o Menino Rato.

"Ela vai partir amanhã."

"O corpo dela se despede amanhã. Mas o laço que unia vocês... esse ela rompeu muito antes."

"Não, não..." As palavras saíram fracas, na voz de uma criança assustada. "E se eu for bom? Se eu for bom, você vai me dar o que eu quero?"

"Ninguém pode lhe dar a escolha que pertence a outro."

"EU PRECISO DELA."

"Sua mãe se perdeu."

A máscara gigante inclinou-se sobre o Menino Rato, cobrindo de sombras seus pelos brancos.

"Entregue-se a mim. Seja meu, e plantarei um jardim de luz nos vales escuros da sua agonia."

O Menino Rato caiu de joelhos. As lágrimas agora escorriam sem controle. Havia alívio naquela dor. Por um instante, nada mais importava. Nem orgulho, nem vergonha, nem a vontade de lutar. Ainda assim, no vazio do peito, ele encontrou um último pedido.

"Então... eu quero morrer", sussurrou.

Das suas costas, uma enxurrada de luz inundou o salão escuro. Quando o brilho intenso tocou a máscara deusa, a madeira branca se pulverizou numa chuva de faíscas incandescentes.

O Menino Rato levantou-se para enfrentar a luz. Seu manto ardeu em chamas. Os pelos queimaram, e a pele enrugou numa crosta negra, sem vida. A silhueta carbonizada rachou, derramando fagulhas e cinzas pelo ar.

Entretanto, enquanto seu exterior ruía, seu interior paradoxalmente se expandia. Quando o semblante negro da criança se partiu, outro rosto revelou-se em suas entranhas. Maxilar mais largo, cabelos mais longos e os mesmos olhos cinza gelo. No lugar do brilho pálido da tristeza, porém, ardia uma chama fria de hostilidade.

Quando a luz consumiu a última cinza, a criança se esvaiu. Em seu lugar havia um jovem de dezesseis anos, mais alto, mais forte, envolto em um maltrapilho manto negro.

O jovem Hakien não fechou os olhos para a claridade incômoda. Forçou-se a confrontar o vazio que carregava. No coração da luz, uma silhueta negra erguia-se. Uma figura masculina, musculosa, de orelhas aculeadas e longas asas escuras.

O ser de sombras era o avesso da luz. Suas trevas eram chama. O brilho branco que delas aflorava era mero reflexo da própria escuridão.

Sem boca nem olhos, ele fitou Hakien pelo inclinar de seu semblante ausente. O Jovem Rato não pareceu impressionado. Deu de ombros, com uma expressão de escárnio e tédio.

"A Esperança é a mais cruel das deusas", disse o ser de sombras, sem voz. "Ela acorrenta você à promessa de um amanhã que nunca chega... sabendo que, sem ela, poucos suportariam o peso do hoje."

A voz não vinha da aparição. Ressoava das profundezas de Hakien, um pensamento intruso impossível de calar.

"Num mundo onde crianças choram, o perigo não são os deuses que as ignoram", a voz negra ecoou, serena e cáustica. "São os que respondem às suas preces."

"Deixa eu adivinhar", Hakien franziu o focinho, com asco. "Você é um deus diferente dos outros. Só você tem o poder de realizar todos os meus desejos?"

"Não todos."

O dedo de sombras fez um gesto displicente e, então, apontou para cima, teatral.

"Apenas um."

"Eu não acredito mais em deuses."

"E nem deveria. Deuses são parasitas da atenção. Alimentam-se da sua obediência, roubam sua individualidade e, no fim, ainda culpam você pelo fracasso das próprias imposições."

O silêncio pesou no ar.

"Eu desprezo suas preces e renuncio à sua submissão. Ame-me, odeie-me ou ignore-me. Pouco me importa. Não venho com promessas vazias. Trago presentes e oportunidades que nenhum deus jamais lhe ofereceria."

"Você não tem nada que eu queira."

A figura estendeu uma mão de trevas. Entre os dedos longos e afiados, segurava um pequeno cupom de ouro.

"Eu tenho o Bilhete Dourado."

As orelhas de Hakien se ergueram.

"Você é Schadenmor?"

A sombra inclinou-se numa reverência teatral.

"Ao seu dispor."

A silhueta de sombras, de orelhas aculeadas e asas escuras, estende o Bilhete Dourado.

"Eu pensei que fosse mentira. Tantas pessoas juraram que você apareceu para elas... como pode estar em tantos lugares ao mesmo tempo?"

"Nas profundezas do abismo, somos unidos por tudo aquilo que queremos, mas não podemos ter."

"É para isso que serve o Bilhete Dourado? Você vai me dar o que eu não posso ter?"

"O bilhete é a oportunidade", Schadenmor assentiu. "Aquela que todos querem, mas nunca encontram. É aquilo que falta. Aquilo de que você precisa para que a sua verdadeira vida possa finalmente começar."

"Você está descrevendo uma fantasia."

"Sim. É uma fantasia."

O pequeno cupom reluziu num amarelo incandescente.

"Mas o bilhete está em seu mundo, ao seu alcance, à sua espera. Se você o encontrar e o rasgar, tornando-o seu, poderá manifestar sua fantasia na realidade."

Hakien esboçou um sorriso torto.

"Quantos bilhetes são?"

"O Pináculo de Schadenmor ascende do abismo a cada cinco anos, oferecendo a cada uma das Cinco Nações de Morserus cinco Bilhetes Dourados. Serão vinte e cinco convidados, vinte e cinco competidores que escalarão seus andares e enfrentarão provações... até que apenas um alcance o cume, onde estarei de braços abertos para celebrar sua vitória."

"Então seu bilhete não vale nada."

"Não para o vencedor. Para o vencedor, ele vale mais que tudo e todos."

Hakien estreitou os olhos cinza.

"Se você tem um bilhete, sua chance de ganhar é uma em vinte e cinco. Mas, quando não se tem bilhete... quando há cinco por nação, a nação dos Ratos tem milhões de habitantes e milhares vão procurar a mesma coisa... que chance é essa?"

"Não é uma loteria", Schadenmor abriu os braços. "É um jogo. Em um jogo, não vence quem tem mais sorte. Vence quem for melhor do que todos os outros."

"E quem não for o melhor? O que acontece com os otários que acreditam em você e despencam dos Poços Fundos? Que se perdem na Floresta de Esporos? Você tem ideia de quantos Ratos morreram da última vez que escondeu seus bilhetes em Kazil? Você se importa com o que acontece aos que perdem?"

"Ninguém se importa com quem perde."

"Isso lhe parece justo?"

Os tambores suaves ao fundo ganharam força e cadência.

"Justo?" Schadenmor fechou as asas escuras. "Se um Rato quiser roubar o seu futuro, diga-me. O que seria justo? Matar ou morrer?"

"Matar."

"A justiça de um é a injustiça do outro."

As sombras de Schadenmor pulsaram, mais intensas.

"Imagine que o Bilhete Dourado já é seu, mas todos querem aquilo que lhe pertence."

"Eu não quero brincar no seu jogo", disse Hakien, sorrindo. "Não vale o risco."

"Ninguém arrisca a vida pelos jogos. São os espólios que trazem meus competidores até mim."

Hakien inclinou a cabeça. Queria recusar, mas as próprias palavras traíram sua curiosidade.

"Que tipo de espólios?"

"São três prêmios gloriosos. O primeiro pertence à nação. A nação vencedora receberá quatro anos de riqueza e prosperidade."

Hakien soltou um riso seco.

"Eu não poderia me importar menos com a prosperidade de uma Nação de Ratos."

"Justo."

As orelhas aculeadas de Schadenmor se moveram num leve aceno.

"O segundo prêmio, então, talvez fale mais fundo ao seu coração. Ao vencedor será concedido o status mais alto de Morserus. A inveja da elite, a idolatria da plebe e o medo silencioso dos poderosos. O título lendário de Ser Supremo."

Hakien deu de ombros.

"Como se eu me importasse com o que um mundo podre e injusto pensa sobre mim."

"Muito bem. Guardei o melhor para o final."

Schadenmor se inclinou sobre Hakien.

"No mirante do Pináculo, entre balaústres de marfim, repousa o Livro dos Desejos. Velho como o mundo, vasto como os sonhos. Em suas páginas dormem todos os anseios, pedidos e milagres que a realidade se recusa a conceder. Encontre ali o eco da sua vontade. Leia-o em voz alta... e testemunhe o vazio que o consome ser preenchido com tudo o que sempre lhe foi negado."

Hakien pensou no que desejaria, mas então abanou o focinho e fitou o ser de sombras.

"E se eu fizer tudo isso, matar e morrer no seu jogo, só para não encontrar o que quero nas páginas do livro?"

"Tudo que falta pode ser encontrado no Livro dos Desejos."

Hakien deu de ombros.

Schadenmor afastou-se, como se desistisse e fosse embora. Então se virou, e seus ecos falaram nas profundezas do Jovem Rato.

"Você quer sua mãe de volta?"

A voz vazia ardeu no peito de Hakien.

"Você a quer feliz e orgulhosa da sua vitória, fingindo que seu abandono nunca aconteceu?"

Hakien deu um passo para trás.

"Ou talvez a prefira em lágrimas. Arrependida, suplicando pelo seu perdão, carregando em seu lugar a dor que deixou em você."

"Não", disse Hakien, num meio grito. "Não."

"Tudo está no meu Livro dos Desejos. Sejam as súplicas de uma criança inocente ou as exigências de um jovem amargurado, não importa a forma do seu vazio. Há muitos capítulos para a sua dor."

Hakien rosnou baixo e avançou um passo.

"A criança que queria ela de volta não existe mais. Você acha que me entende, que pode me manipular, mas não me enxerga. Eu não quero minha mãe. Não quero os deuses Orkshas. Não quero esse mundo de Ratos que me cerca. Tampouco quero seu Bilhete Dourado."

Ele inspirou fundo, contendo a violência das próprias palavras.

"Eu quero um mundo onde nenhum de vocês exista. Um lugar tão distante, tão silencioso, que nem a memória de vocês possa me alcançar."

O ser de trevas se aproximou, alto sobre o Jovem Rato.

"Se essa for a verdade do que você realmente quer, então exulte. Isso também está no ápice do Pináculo de Schadenmor."

"É tentador. Não vou mentir."

"Eu sempre soube que você diria sim."

Hakien soltou uma pequena risada.

"Minha resposta é não."

"Do seu primeiro ao último suspiro", Schadenmor pousou uma mão de trevas sobre o rosto de Hakien, "você nunca encontrará o que procura sem mim."

"Eu não preciso de você. Não preciso de ninguém."

Hakien golpeou a mão, dispersando as sombras que o tocavam.

"Tenho meu plano. Estou no comando do meu destino."

"E se eu lhe contar um segredo?"

O braço de Schadenmor sangrou luz e se refez nas chamas da própria escuridão.

"E se eu disser que você é diferente de todos os outros participantes?"

"Diferente como?"

Os tambores começaram a crescer. Batidas secas, distantes, mas perturbadoras em sua harmonia crua. Hakien franziu o focinho e fitou Schadenmor.

"O que você diria se eu lhe dissesse que está destinado a encontrar o Bilhete Premiado?"

"Eu diria que você está trapaceando."

"De forma alguma. Eu apenas sempre tive o poder de reconhecer o vencedor."

Hakien não sabia o que dizer. As batidas aumentaram. Seu peito também batia mais forte. Ele queria acreditar, mas querer acreditar era uma armadilha.

"Você está tentando me enganar", disse, sério.

"O que seu coração lhe diz? Este é apenas um jogo como qualquer outro? Ou esse jogo foi criado especialmente para você, para que prove ao mundo o seu verdadeiro valor?"

As batidas dos tambores se intensificaram. Agora Hakien ouvia a euforia carnavalesca de uma multidão.

"Que barulho é esse?"

"Esse é o mundo que você recusa, à sua espera."

"Faça-os parar."

"Eles nunca vão parar. A única forma de calar seu mundo é encontrando o seu Bilhete Dourado."

"NÃO. EU JÁ LHE DISSE NÃO."

"Posso provar que você é o escolhido." Os ecos de Schadenmor quase não podiam ser ouvidos sobre a festa alucinante de tambores. "Vou lhe dizer onde escondi o seu Bilhete Dourado."

"NÃO."

Hakien tapou os ouvidos.

Schadenmor lhe disse alguma coisa, mas a voz interior não tinha a força das batidas, agora ensurdecedoras. Por toda parte, na escuridão e na luz, até o chão tremia diante da euforia louca.

Junto aos tambores vinham gritos de alegria e uma voz de trovão, proferindo palavras que ele não conseguia entender. Hakien reconhecia aquele som maldito. Era uma festa. Uma festa dos Orkshas.

A sombra de Schadenmor tremeu diante da invasão daquilo que ali não deveria existir. A cada batida, extinguia-se um pouco mais. Quando as chamas de suas trevas se dispersaram, as sombras de luz também se apagaram.

Hakien encontrou-se sozinho no vazio da escuridão.

As batidas, entretanto, continuaram a crescer.

"Não", disse, em agonia. "Parem com esse maldito som."

Então a escuridão se partiu.

Mas os malditos tambores continuavam a tocar.

Hakien sozinho na escuridão que se parte, enquanto os tambores dos Orkshas não param.
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O Menino Rato, pequeno e de cabelos brancos, sozinho no redemoinho de névoa negra.A máscara colossal de madeira branca, coroada de flores murchas, surge da névoa sobre o Menino Rato.A silhueta de sombras, de orelhas aculeadas e asas escuras, estende o Bilhete Dourado.Hakien sozinho na escuridão que se parte, enquanto os tambores dos Orkshas não param.
O Pináculo de Schadenmor

Capítulo 1

7 min de leitura

Hakien saindo do seu buraco na rocha, à beira da fissura abissal, diante da favela de pedra.

Hakien abriu os olhos para a escuridão.

Os tambores batiam sem parar, massacrando o silêncio com um ritmo desarmonioso. Apitos agudos, caixas histéricas, surdos que vibravam nos ossos. Mas, naquela sinfonia de caos, nada o incomodava mais do que os gritos incessantes dos foliões.

Era uma alegria forçada... exibida... encenada.

Hakien despertara de um pesadelo apenas para cair em uma realidade ainda pior.

Nas trevas do buraco que chamava de lar, o ar era denso e frio, carregado do mofo da terra e da poeira antiga. Ao se levantar, curvou-se instintivamente. O teto da caverna era opressivamente baixo, como o de um caixão de pedra.

Se abrisse os braços, tocaria as paredes de pedra de ambos os lados.

Pouco tinha ali, porque pouco cabia.

Apenas uma cama de raízes mortas, um saco de roupas surradas e a faca que roubara do pai.

Sua bexiga ardia. Sem banheiro, Hakien arrastou-se para fora do buraco e parou à beira de uma fissura abissal. Seus pés mal cabiam na borda estreita, mas mesmo assim, aliviou-se no vazio negro abaixo.

Olhando para o outro lado da fenda, ele avistou a familiar favela de pedra onde milhares de habitações eram esculpidas umas sobre as outras. Não buracos escuros como o dele, mas casas com janelas, varandas e famílias.

Hakien fechou os olhos, seu corpo clamava para voltar ao escuro, sem perceber, sua cabeça abaixou e seus ombros seguiram deslizando em direção à queda.

Uma pancada de tambor o despertou, mas seu corpo já estava começando a cair. Sem tempo para pensar ele sentiu a dor antes de entender que tinha quebrado suas unhas ao fincar seus dedos nas pedras brutas da entrada.

O sono deu lugar a um sentimento de desprezo e indignação.

O Primeiro Sino ainda não havia tocado.

O maldito barulho que nunca parava, que não deixava ele dormir, pensar, viver. Ou mesmo morrer como agora.

Era uma tortura intermitente que existia na presença, mas que vinha lhe perturbar também nos dias de silêncio, na expectativa que sua paz seria mais uma vez roubada.

Estava tão cansado... tão exausto da vida... que ao fitar as profundezas abaixo não mais ele via um perigo.

Mas sim um bem-vindo refúgio.

Uma curta viagem para longe do barulho, dos Ratos, da proposta amaldiçoada de Schadenmor.

"Não foi um sonho."

Falou para si mesmo.

Um riso rouco.

Do outro lado da fenda, um Rato velho lhe observava do fundo de uma sacada mais baixa.

Não importava a hora ou o dia... o velho estava sempre lá. Sempre à procura de nada.

Hakien se ergueu na fresta, virando o rosto do velho e apontando seu focinho para cima, à procura do céu amarelo, do sol laranja que ele só conhecia de ouvir falar.

Sua favela era número 13, baixa demais para ver a luz. Num dia perfeito, o máximo que ele já tinha visto foi um reflexo pálido de luz.

Aqui reinavam as trevas, com apenas Besouros de Fogo e Fungos de Ara luminosos para desafiar a escuridão.

"Hoje vai ser meu último dia no escuro."

Hakien deu um longo suspiro, entrou em seu buraco-lar, pegou sua capa negra, cheia de rasgos e furos, escondeu a faca nas costas e então saiu para escalar as pedras íngremes da fenda.

A subida era estreita e perigosa, mas o tempo a tornara apenas uma rotina banal.

Quando alcançou a faixa, deparou-se com o baile. Com a multidão de Ratos seminus que tomava a caverna de parede a parede, vestindo apenas tangapés de fibra de fungo. Todos com os pelos pintados com as cores ardentes de seu Orksha.

Festejavam sob uma abóbada rochosa coberta de estalactites. Usando um robe negro, um musculoso Rato estava no centro, num trono carregado pelos foliões, com uma máscara redonda, que brilhava nas vibrantes cores de vermelho e rosa.

O baile dos Orkshas: milhares de Ratos pintados sob as estalactites e o Roda-Morta no trono, com a máscara da Euforia.

Com um leve sorriso, Hakien imaginou as estalactites caindo sobre os foliões e sobre o Roda-Morta que vestia a máscara do Deus Orksha da Euforia. Quando nada aconteceu, ele soltou um doloroso suspiro de frustração.

Não havia outro caminho.

Ele teria que passar pelo meio dos malditos Ratos.

Não havia espaço entre eles. Os Ratos machos se esfregavam nas fêmeas, dançando, trocando de par, misturando as cores suadas e sujas dos corpos. Eram muitos, mas pareciam ser um.

Hakien atravessou o redemoinho... o redemoinho de Ratos, de sons, cheiros e insuportável calor.

Na periferia da festa, quando finalmente estava para ficar livre da multidão, alguém segurou seu braço, lhe trazendo de volta ao caos.

"Vai me deixar sozinha?"

Era uma jovem Rata, pequena e delicada. Seu rosto, pintado, emoldurava um sorriso travesso, enquanto os longos cabelos dourados, reluzindo no escuro da caverna, desciam em cachos sobre ombros nus. Os olhos azuis, penetrantes e vivos, completavam sua expressão de beldade maliciosa.

Quanto mais belas, mais elas vão te machucar.

Seu pai lhe disse mais de uma vez.

A jovem Rata de cabelos dourados segura o braço de Hakien na borda da festa.

"Me solta." Hakien falou baixo, incerto de sua convicção.

"O que você falou?" Ela gritou por cima do barulho do baile, aproximando o rosto. "Fala mais alto!"

Ele puxou o braço. "Eu falei me solta."

A bela jovem Rata fez uma careta de surpresa. "Não cresce em mim não, cria, assim eu te arranho de alegria."

O que ela quis dizer com isso?

"Eu te vejo apertando o passo." Ela picou. "Você me vê também, mas nunca para, sempre na pressa."

Hakien avistou ela várias vezes, nunca lhe ocorreu que ela prestava atenção nele também.

"Eu tenho que ir."

"Mentira." Ela respondeu com um sorriso. "Eu sei o que você quer, cria. Tá indo pro lado errado."

"Todo lugar é o lado errado aqui."

Ela estendeu as duas mãos. "Você diz isso porque ainda não dançou comigo."

"Por que hoje?"

"O quê?" Ela gritou ainda com os braços estendidos.

"De todos os dias, por que hoje você escolheu falar comigo?"

Sem graça, ela baixou os braços. "Que diferença faz?"

"Qual o seu nome?"

"Trina."

"Adeus, Trina."

Hakien virou as costas, ignorando os olhares que se acumulavam à sua volta.

"Você prefere morrer?" Trina gritou. "Você prefere morrer a dançar comigo?"

Isso é uma ameaça ou um aviso?

Ele andou de volta, ficando ainda mais próximo que antes. "O que você quer dizer com isso?"

"Você vai caçar o Bilhete Dourado."

"Como você sabe do Bilhete Dourado?"

Trina fez uma careta com a língua de fora. "Todo mundo foi convidado. E quem não foi tá indo atrás de quem foi. Estão todos indo para a Estação das Gaiolas, estão fazendo fila para jogar a vida deles fora." Ela olhou à volta. "É por isso que estamos fazendo o baile, para salvar vidas."

"O que te importa?" Hakien franziu o focinho. "O que te importa o que os outros fazem, o que te importa onde eu vou ou não?"

"Meu irmão." O sorriso de Trina se escondeu, seus olhos azuis se perderam no vazio. "Ele prometeu que nos tiraria daqui. Que acharia o bilhete. Que tudo ficaria melhor. Mas quando ele não voltou..." A voz dela falhou. Ela não conseguiu terminar.

"Eu não estou atrás do Bilhete Dourado."

"Você me disse adeus."

"Eu não vou voltar."

"Você teve o sonho?"

Hakien deu um leve aceno.

Trina deu um sorriso triste.

"Você pertence a ele então."

"Não, eu não pertenço a ninguém."

Hakien deu alguns passos para trás, seus olhos cinzas atados aos azuis dela.

"Eu espero que você morra." Ela falou com lágrimas.

Todos ao redor tinham parado de dançar, a música ainda tocava, mas o ritmo aqui era outro. Quebrado.

Hakien deu as costas para Trina uma última vez.

E caminhou para longe do barulho, da favela, do seu lar nos últimos anos.

Por dentro, seu peito batia em euforia, não pelo que deixava para trás, mas pelo que estava por vir.

Hakien vai embora sozinho, e atrás dele a grandiosidade da caverna, a favela e milhares de Ratos.
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Hakien saindo do seu buraco na rocha, à beira da fissura abissal, diante da favela de pedra.O baile dos Orkshas: milhares de Ratos pintados sob as estalactites e o Roda-Morta no trono, com a máscara da Euforia.A jovem Rata de cabelos dourados segura o braço de Hakien na borda da festa.Hakien vai embora sozinho, e atrás dele a grandiosidade da caverna, a favela e milhares de Ratos.
O Pináculo de Schadenmor

Capítulo 2

11 min de leitura

Abertura · Os Arcos de Kara Kuera Os arcos colossais e rachados de Kara Kuera chovem poeira com a passagem do bondinho; Hakien, pequeno, atravessa o túnel sem correr. a definir · 3:4 (1536 × 2048) · versão larga 16:9 (2560 × 1440) opcional

Morserus visual canon: dark fantasy anthropomorphic world with no humans, cinematic stylized 3D realism, high-end CGI character portrait quality, semi-photorealistic fantasy characters with predominantly humanoid anatomy and only selective species traits, correct animal nose and animal ears, no human ears, no tails, no whiskers, slightly stylized youthful facial proportions, slightly enlarged highly expressive eyes, realistic skin and hair, detailed PBR materials, dramatic highly saturated gothic lighting, cinematic color grading, soft volumetric light, shallow depth of field, cinematic background depth, intimate close-up or extreme close-up framing when emotion is central, serious treatment of young characters, polished AAA game cinematic look, clean image, no artificial grain, no speckled noise, no dust haze, no gritty microtexture, no text, no watermark. Use the attached Hakien_JOVEM_REF.png (back view) for the character and DETALHE_04_RELEVOS_DE_PEDRA.png for the carved stone language. Scene: the Arches of Kara Kuera, a colossal underground tunnel that links the slums of Kazil. A long procession of gigantic stone arches recedes into darkness like the ribs of a buried cathedral; each arch is built from enormous blocks carved with worn runes and flowing relief patterns, and every block is split by deep cracks. Along the crown of the arches runs a rusted iron rail on which a small industrial tram car is passing overhead; the vibration makes thin falling streams of grit and pebbles pour from the cracks, caught in the light like threads. Further ahead, one arch has already collapsed into a slope of broken boulders that narrows the path, a silent warning. Very small in the lower center of the frame, seen from behind, a lone lean sixteen-year-old rat youth with messy white hair and large pink rat ears, a single tattered black cape hiding his arms, torn black trousers and wrapped bare feet, walks forward at a steady, deliberate pace, refusing to run. He is tiny against the architecture: the arches, not the boy, dominate the image. Emotion: dread, a conviction that he will not reach the end, and stubborn pride. Lighting: cold blue-grey bioluminescent fungi clinging to the cracks of the arches, a few drifting fire beetles like embers, and at the far end of the tunnel a faint warm glow of the market that waits beyond; deep black between the arches. Underground world, no sky, only rock above. Framing: low wide-angle shot down the center of the tunnel, strong one-point perspective, the boy as a small silhouette on the central axis. Vertical 3:4 (1536 x 2048), subject centered with the tunnel walls and arches continuing on both sides so the image can later be extended to 16:9.

Hakien atravessou os Arcos de Kara Kuera.

Eram blocos gigantescos decorados em runas que sustentavam os túneis que ligavam as diferentes favelas no mesmo nível. As monumentais pedras estavam rachadas, e quando os bondinhos passavam, o firmamento de pedra chovia poeira.

Todos sabiam que era uma questão de tempo até os arcos desabarem.

Outros já haviam se partido, levando em seu caminho centenas de Ratos.

Ninguém se importa. E, em qualquer outro dia, eu também não iria me importar.

Um suor frio desceu pelas costas de Hakien. Mais que um pressentimento, era uma convicção irracional que dizia, Eu não vou chegar ao final.

Milhares de vezes ele fez esse caminho, o desprezado caminho de sua rotina.

Em muitos dias ele teria agradecido um final rápido, para uma vida lenta e sem importância. Porém hoje não era apenas mais um dia, hoje seria seu último dia.

Seu último dia nos arcos. No túnel. Na sua voluntária escravidão.

Quanto mais ele queria o que lhe esperava no final do túnel, mais certeza ele tinha que sua estória terminaria aqui.

Que justo hoje, no dia mais importante da sua vida, tudo lhe seria negado. Todo o seu trabalho.

Toda a sua espera.

Tudo que suportou... tudo em vão.

Hakien quis correr. Talvez, se corresse, pudesse enganar seu destino.

Mas seu orgulho segurou seus passos. Mesmo com o túnel vazio, mesmo sem ninguém para testemunhar seu pânico, correr seria uma admissão.

Seria a prova que no fundo, ele era igual a todos os outros Ratos.

Eu prefiro morrer.

Não era verdade. Mesmo assim ele andou, na certeza de seu fim.

Para seu alívio, surpresa e vergonha, os Arcos de Kara Kuera não desabaram.

Ele alcançou o Eixo, diante dele a Feira de Mangaio, na circunferência das paredes de pedra que eram a entrada da Estação das Gaiolas.

A feira que normalmente era um caos de vozes e cheiros, hoje estava praticamente vazia, muitas das barracas abandonadas.

Da murada aberta, uma fila de Ratos transbordava da estação até Mangaio.

Eram Ratos de todos os sexos e idades, velhos e crianças, famílias, casais, párias, estranhos antissociais. Em suas mãos martelos, vassouras, enxadas, facas e até mesmo algumas espadas, qualquer objeto com a capacidade de matar.

À primeira vista eles não tinham nada em comum, figuras aleatórias que pareciam ter sido sorteadas para ficar na fila. Mas nos olhos inquietos, Hakien reconheceu algo intimamente familiar.

Fome.

Não de comida, mas de vida.

A fome de quem espera.

A fome de quem nunca teve.

A fome de quem precisa ter.

Hakien ignorou a fila e entrou na Estação.

O espaço que se abria à sua frente era uma rotunda colossal, coroada por um domo de mosaicos negros e brancos que se entrelaçavam em formas fluidas. Ali, os Orkshas ganhavam vida, divididos entre luz e sombra.

Cenário · A Estação das Gaiolas A rotunda da Estação das Gaiolas: o domo onde os Orkshas lutam, as bilheterias, os tatuadores e a fila faminta; Hakien passa sem entrar nela. a definir · 3:4 (1536 × 2048) · versão larga 16:9 (2560 × 1440) opcional

Morserus visual canon: dark fantasy anthropomorphic world with no humans, cinematic stylized 3D realism, high-end CGI character portrait quality, semi-photorealistic fantasy characters with predominantly humanoid anatomy and only selective species traits, correct animal nose and animal ears, no human ears, no tails, no whiskers, slightly stylized youthful facial proportions, slightly enlarged highly expressive eyes, realistic skin and hair, detailed PBR materials, dramatic highly saturated gothic lighting, cinematic color grading, soft volumetric light, shallow depth of field, cinematic background depth, intimate close-up or extreme close-up framing when emotion is central, serious treatment of young characters, polished AAA game cinematic look, clean image, no artificial grain, no speckled noise, no dust haze, no gritty microtexture, no text, no watermark. Follow the attached references exactly: Estacao_das_Gaiolas_Conceito.png is the primary reference for the architecture, Planta_Estacao_das_Gaiolas.png for the layout, DETALHE_01_CUPULA_ORKSHAS.png for the dome, DETALHE_03_BILHETERIAS_TATUADORES.png for the central island, DETALHE_02_ELEVADOR_EMBUTIDO.png for the elevator doors, 17_Grupo_Extras_Fila.png for the crowd, and Hakien_JOVEM_REF.png (back view) for Hakien. Scene: the Station of the Cages, seen from the entrance that comes in from the market. A colossal circular rotunda carved out of solid rock under a closed dome with gothic stone ribs. The dome is covered in a fluid black-and-white mosaic where two vast intertwined figures, one pale and one dark, could be dancing or fighting; here they read as locked in combat. Hidden in the pattern, barely perceptible, a pale protective curve suggests the mask of Love and a dark receding void suggests the mask of Abandonment; they are not literal faces. Around the wall, a ring of tall gothic doors of blackened riveted iron set flush into the rock, thirty-three of them separated by stone pillars, each with a small metal plaque bearing a different symbol (a skull, a black mushroom, a flame, a flower, a number). In the center, a circular island of ticket booths with iron grilles and tattered red-and-black banners; beside it, tattoo artists at small wooden tables marking the forearms of travelers. Concentric rope-and-post queue rings spiral around the island, packed with the waiting crowd: rat-folk of every age and kind, elderly women in shawls, families with small children, gaunt men, a red-haired mother, all in patched earth-toned clothes, clutching humble weapons, hammers, brooms, hoes, kitchen knives and a few old swords. Their faces show the same restless hunger, not for food but for a life. In the lower center foreground, seen from behind, Hakien, a lean sixteen-year-old rat youth with messy white hair and large pink rat ears, his single tattered black cape hiding his arms, walks past the end of the queue without joining it; a few heads in the line turn to watch him. The station is the subject; Hakien is a small figure that gives the scale. Emotion: monumental, solemn, tense, a temple of departures. Lighting: warm golden candle lanterns on the stone and the booths against cold blue-grey shadow in the dome and between the doors, restrained red from the banners. No hanging chains, no cages descending from the ceiling, no open shafts, no oculus, no sky. Framing: slightly elevated wide view from the entrance, the central island on the vertical axis and the dome filling the upper third. Vertical 3:4 (1536 x 2048), centered composition with the rotunda wall continuing on both sides so the image can later be extended to 16:9.

Se dançavam ou lutavam entre si, apenas os olhos de quem os contemplava poderiam dizer. Num dia triste, eles lutavam, já num dia feliz eles bailavam em perfeita harmonia.

Quando criança ele tinha visto os Orkshas dançando, mas no dia que sua mãe subiu a gaiola, desde então, os Orkshas estavam sempre em guerra.

As bilheterias ficavam abaixo da abóbada, ao lado dos tatuadores. Na perfeita circunferência de trinta e três gaiolas com placas de diferentes símbolos, em cada qual cabiam cem Ratos, mas quando desciam eram centenas e quando subiam era em unidades.

Hakien baixou os olhos e seguiu o caminho de sua rotina.

"Tá querendo furar a fila, pivete?"

O Rato que falou era mais baixo, com a cabeça batendo no seu ombro. Porém era muito mais musculoso, mais velho, com uma expressão de ressentimento e desgosto. Sua barba negra era longa, seu cabelo era curto, seu avental de açougueiro estava sujo de sangue. Em seu punho, um cutelo descomunal.

"Me deixa em paz." Hakien falou sem ameaça, passou pelo Rato Raivoso sem levantar os olhos ou atrasar, ou apressar seus passos lentos.

O Rato Raivoso pegou na capa de Hakien. Abriu o focinho para dizer algo, mas em vez de palavras, gritou em alucinante dor.

Hakien estava com sua faca na mão esquerda. Uma linha de sangue corria pela lâmina, enquanto um pequeno sorriso lhe corria os lábios.

O Rato Raivoso fitava o corte no braço, não no que segurava o cutelo, mas no que puxara a capa. "Você me cortou?" Era medo, e não raiva, em sua voz.

Da fila, outros quatro Ratos saíram. Um alto e magro, outro gordo e feio, outro grande com um rosto estúpido, e por fim um jovem com olhos esbugalhados. Todos vestidos com aventais, suas armas eram espetos e martelos de carne.

À frente da fila, os cinco açougueiros se voltam para Hakien: os três centrais o encaram com hostilidade, o aprendiz permanece apreensivo e o grandalhão conserva o olhar sereno.

"Você me cortou, seu pivete." O Rato Raivoso repetiu, desta vez com ultraje e ódio em sua voz. "Quem mexe comigo, mexe com minha ninhada."

Os cinco Ratos cercaram Hakien. A plateia na fila sorria, agradecida pelo espetáculo que aparecera para aliviar o tédio da espera.

Os Ratos Açougueiros estavam em posturas de combate, curvados com suas armas (utensílios) expostas. Hakien, entretanto, mantinha-se erguido, com sua faca baixa, apenas os frios olhos cinza percorrendo o círculo de ameaças.

"Não foi de dor que você gritou." Hakien falou calmo. "A dor vem depois. É uma sensação estranha, não é?"

"Tá maluco, pivete?" O Rato Raivoso falou alto, para todos ouvirem, mas seus olhos corriam para a faca, e seu cutelo tremia em sua mão. "Tá se achando? Tá podendo encarar cinco contra um?"

"Eu estava falando de mim." Hakien levantou sua capa e mostrou três cicatrizes em seu abdômen. "Eu já fui esfaqueado."

"O pivete é ruim da ideia." O Rato de olhos esbugalhados falou. "Deixa ele ralar, que matar doido dá azar."

A plateia vaiou. "Vai deixar barato?" falou um. "Vão arregar pra cria?" falou outro. "Pode broxar não, enfia no moleque senão vai pegar mal."

"Pede desculpas." O Rato Gordo segurando um martelo de carne falou. "Pede desculpas e vai pro final da fila, que a gente fecha sua conta."

"Fechar a conta?" O Rato Raivoso rugiu num ultraje. "A dívida dele é de sangue."

"Eu não quero matar ninguém." Falou o Rato de olhos esbugalhados. "Deixa ele se desculpar."

"Não." O Rato Raivoso gritou, e a plateia vibrou. "Pelo menos uma surra ele tem que levar."

"Então dá a surra." O Rato Gordo esbravejou sem paciência. "Vai lá e cobra o que é seu." A plateia vibrou.

Hakien fitou o Rato Raivoso, levantou sutilmente sua sobrancelha, como quem diz, O que você vai fazer agora?

O Rato Raivoso firmou seu cutelo, deu um passo à frente, olhou para a faca, para a gota de seu sangue que naquele momento caía ao chão.

"Qual o seu nome, pivete?"

"Por que você não sai do meu caminho?"

Hakien falou cansado. O sino da vigília ainda não tinha tocado. Ele deveria estar dormindo.

Mas não, de todos os dias, hoje tudo acontecia de uma vez. Tudo e todos estavam contra ele, juntos formando e habitando sua prisão.

"Por que você não me deixa em paz?"

"Você me deve." O Rato Raivoso mostrou o braço cortado. "Primeiro eu te dou a surra, depois eu coloco seu nome no livro dos devedores."

A plateia festejou, e os Ratos ao redor de Hakien sorriam e acenaram eufóricos.

"Eu tirei sangue." Hakien deu de ombros. "Mas você me tocou com uma lâmina nua. Eu estou no meu direito de responder à altura."

A plateia vibrou ainda mais, agora vaiavam e assobiavam contra o Rato Raivoso. Sua torcida era fiel apenas à percepção de qual era o mais forte.

"O Orksha do Orgulho prega que a injustiça sem resposta é a justiça do mais forte." O Rato Grande e feio falou com sua voz rouca. "O Orksha da Justiça fala que aquele que segura a faca..."

"Cala a boca, seu cretino." O Rato Raivoso rugiu para o maior. "Eu não fiz nenhum desafio, ele é um pivete furando a fila, eu só queria colocar ele no seu lugar."

"Não faz diferença, faz?" Hakien falou de volta. "Agora é um duelo."

Os Ratos Açougueiros ao redor de Hakien baixaram suas armas, olhando entre si em confusão e incerteza.

"Você é sangue ruim." O Rato Raivoso apontou o dedo do braço cortado para o focinho de Hakien. "Você se acha esperto, pivete? Quer voltar todos contra mim?" Ele cuspiu no chão em frente à fila. "Vocês são lixo, ele não tomou o que é meu, ele tomou o lugar de todos aqui, e se ele achar o bilhete? E se o seu lugar na fila for o seu lugar na vida?" Ele se virou para os amigos de trabalho. "Vocês largaram o trabalho, estão dispostos a arriscar suas vidas, então, seus cretinos, a luta não começa lá embaixo, a luta começa aqui e agora."

Ele se virou de novo para Hakien. "Ele não é meu inimigo. É inimigo de todo Rato que respira."

Num piscar de olhos, a plateia se voltou contra Hakien e agora urrava para o Rato Raivoso, desta vez não era apenas diversão e euforia, eles agora tinham ódio e ressentimento no coletivo de sua voz.

Alguns saíram da fila, com suas armas humildes eles se juntaram ao círculo ao redor de Hakien. O que era para ser um duelo, estava para se transformar num linchamento.

"Tá pronto para a surra, pivete?" O Rato Raivoso falou não mais com raiva, mas sim com alegria e prazer, pela primeira vez, ele parecia genuinamente feliz.

Hakien olhou para as dezenas de Ratos, para todos aqueles que mesmo sem lhe conhecer, já o tinham acolhido como inimigo. Parecia trágico, mas era na verdade uma grande piada.

Hakien riu, riu com gosto e emoção, riu tanto que o pressentimento vazio em seu peito quase desapareceu, sim, seu mundo queria seu fim, mas ao mesmo tempo eles eram estúpidos demais para conseguir quaisquer que fossem suas vontades.

"Do que você está rindo, pivete?" O Rato Raivoso gritou, agora sem alegria.

Hakien abanou a cabeça, colocou sua faca de volta nas costas.

"Eu não estou na fila." Ele olhou para a gaiola vazia da caveira, à direita. "Pouco me importa o seu Bilhete Dourado."

O sentimento de todos foi de surpresa e confusão.

"Não, ele está mentindo." O Rato Raivoso falou para todos ao seu redor. "Ele está tentando escapar sem pagar o que deve."

"Olha o braço dele." Falou o Rato de olhos esbugalhados.

Hakien levantou o antebraço, mostrando na parte interna as diferentes tatuagens. Pequenas tatuagens na forma de círculos ou hexágonos, cada qual com um símbolo, uma caveira, uma chama, uma flor, o número 13, e um X.

"Ele é um gaioleiro." O Rato Gordo falou colocando a mão sobre o ombro do amigo. "Só um órfão gaioleiro."

A plateia se dispersou, e todos voltaram ao seu lugar na fila, insatisfeitos e entediados, novamente à espera de sua vez. Os açougueiros retornaram lentos, puxando assunto entre si, evitando ver e ser visto.

O Rato Raivoso permaneceu bloqueando o caminho, mas Hakien passou como se ele já estivesse indo embora.

Ratos da fila se amontoaram dentro da gaiola com o símbolo de um cogumelo negro, cabiam cem, mas quase duzentos se amontoavam uns sobre os outros.

Na gaiola ao lado, com o símbolo de uma caveira, um velho Rato de óculos grossos era o condutor, com suas mãos magras nas alavancas enferrujadas.

"Ninguém veio trabalhar hoje. O Ossuário vai estar vazio." O Velho falou com um sorriso sem dentes. "Mas você nunca falta, né, menino?"

O primeiro sino da vigília tocou.

O Velho cansou de esperar pela resposta e com um girar da manivela fechou as grades hidráulicas da gaiola industrial.

O Rato Raivoso correu até seu focinho ficar entre as grades. "Você vai pagar. Um dia vem a conta da sua dívida de sangue."

"Eu pago." Hakien respondeu na profundidade clara de seus olhos cinzas. "Eu pago todos os dias."

A gaiola começou a descer, o Rato Raivoso queria dizer algo, mas em seu focinho aberto, nenhuma palavra foi proferida.

"Boa sorte." Hakien deu um leve aceno. "Eu espero que você encontre o que merece."

A gaiola desceu, se perdendo nas profundezas escuras.

Fecho · A gaiola desce Atrás das grades da gaiola da caveira, que começa a descer, Hakien se despede com um aceno; do lado de fora, o Rato Raivoso fica sem palavras. a definir · 3:4 (1536 × 2048) · versão larga 16:9 (2560 × 1440) opcional

Morserus visual canon: dark fantasy anthropomorphic world with no humans, cinematic stylized 3D realism, high-end CGI character portrait quality, semi-photorealistic fantasy characters with predominantly humanoid anatomy and only selective species traits, correct animal nose and animal ears, no human ears, no tails, no whiskers, slightly stylized youthful facial proportions, slightly enlarged highly expressive eyes, realistic skin and hair, detailed PBR materials, dramatic highly saturated gothic lighting, cinematic color grading, soft volumetric light, shallow depth of field, cinematic background depth, intimate close-up or extreme close-up framing when emotion is central, serious treatment of young characters, polished AAA game cinematic look, clean image, no artificial grain, no speckled noise, no dust haze, no gritty microtexture, no text, no watermark. Follow the attached references exactly: Hakien_JOVEM_REF.png for Hakien (front view), Rato_Raivoso_REF.png for the Angry Butcher, DETALHE_02_ELEVADOR_EMBUTIDO.png for the elevator door, Estacao_das_Gaiolas_Conceito.png for the station materials, 17_Grupo_Extras_Fila.png for the crowd. Scene: the moment an elevator begins to descend in the Station of the Cages. A tall gothic doorway of blackened riveted iron set into the rock wall, a small metal plaque with a skull symbol above it. The heavy hydraulic gate of thick vertical bars has just closed. Behind the bars, inside a nearly empty industrial cage cabin, stands Hakien, a lean sixteen-year-old rat youth, shirtless, messy white hair, large pink rat ears, cold ice-grey eyes, single tattered black cape open at the front, brown belts with a round buckle, black wraps, bare feet; calm and weary, he gives a small farewell nod with a faint raised hand. The cabin floor has already sunk about half a meter below the station floor, so the stone threshold cuts across his shins and he is slightly lower than the viewer. Beside him at the controls, an elderly, very thin rat conductor with thick round glasses that magnify his eyes, a toothless smile and bony hands on rusty brass levers. In the foreground, outside the gate, the Angry Butcher, short, extremely muscular, long black beard, blood-stained leather apron with a hook-and-cleaver guild mark, a fresh cut on his left forearm, presses his snout between two bars; his mouth hangs open but no words come out, rage turning into helplessness. Through the stone on one side, the neighboring doorway with a black mushroom plaque is crammed with nearly two hundred rat-folk pressed against the bars, twice its capacity. Emotion: quiet, bitter ending; the boy calm, the man left behind. Lighting: a single warm lantern inside the cabin lights Hakien and the conductor from above, while cold blue-black darkness swallows the shaft below; warm candle light of the station on the butcher's back. No chains hanging in open air, no cage hanging from the ceiling, no sky, no gore. Framing: eye-level medium shot through the bars, Hakien centered behind the gate, the butcher's face large in the foreground at one side. Vertical 3:4 (1536 x 2048), composition centered on the gate with the station wall and neighboring doors continuing on both sides so the image can later be extended to 16:9.

PróximoCapítulo 3

Em breve. Novo capítulo toda semana.

Os tambores não param.

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Galeria do capítulo

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À frente da fila, os cinco açougueiros se voltam para Hakien: os três centrais o encaram com hostilidade, o aprendiz permanece apreensivo e o grandalhão conserva o olhar sereno.
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Quem é quem

Personagens

Aparecem aqui conforme você avança na leitura, para não estragar surpresas.

Retrato de Hakien
Aparece em: PrólogoHakien

Um jovem Rato de cabelos brancos e olhos cinza-gelo, da favela 13 de Kazil, que não acredita mais em deuses.

Aparece em: PrólogoA Esperança

A deusa de madeira branca que promete um amanhã.

Aparece em: PrólogoSchadenmor

O ser de sombras que aparece em sonhos oferecendo os Bilhetes Dourados.

Aparece em: Capítulo 1Roda-Morta

Preside o baile dos Orkshas com a máscara da Euforia.

Aparece em: Capítulo 1Trina

Uma jovem Rata da favela 13, de cabelos dourados e olhos azuis.

Ilustrações

Arte

Todas as ilustrações publicadas, por capítulo.

Prólogo

O Menino Rato, pequeno e de cabelos brancos, sozinho no redemoinho de névoa negra.A máscara colossal de madeira branca, coroada de flores murchas, surge da névoa sobre o Menino Rato.A silhueta de sombras, de orelhas aculeadas e asas escuras, estende o Bilhete Dourado.Hakien sozinho na escuridão que se parte, enquanto os tambores dos Orkshas não param.

Capítulo 1

Hakien saindo do seu buraco na rocha, à beira da fissura abissal, diante da favela de pedra.O baile dos Orkshas: milhares de Ratos pintados sob as estalactites e o Roda-Morta no trono, com a máscara da Euforia.A jovem Rata de cabelos dourados segura o braço de Hakien na borda da festa.Hakien vai embora sozinho, e atrás dele a grandiosidade da caverna, a favela e milhares de Ratos.

Capítulo 2

À frente da fila, os cinco açougueiros se voltam para Hakien: os três centrais o encaram com hostilidade, o aprendiz permanece apreensivo e o grandalhão conserva o olhar sereno.
Página provisória

Morserus

O universo onde se passam as histórias. Aqui vão ficar as obras, os personagens e o mapa das Cinco Nações.