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Morserus
O Pináculo de Schadenmor

Capítulo 1

7 min de leitura

Hakien saindo do seu buraco na rocha, à beira da fissura abissal, diante da favela de pedra.

Hakien abriu os olhos para a escuridão.

Os tambores batiam sem parar, massacrando o silêncio com um ritmo desarmonioso. Apitos agudos, caixas histéricas, surdos que vibravam nos ossos. Mas, naquela sinfonia de caos, nada o incomodava mais do que os gritos incessantes dos foliões.

Era uma alegria forçada... exibida... encenada.

Hakien despertara de um pesadelo apenas para cair em uma realidade ainda pior.

Nas trevas do buraco que chamava de lar, o ar era denso e frio, carregado do mofo da terra e da poeira antiga. Ao se levantar, curvou-se instintivamente. O teto da caverna era opressivamente baixo, como o de um caixão de pedra.

Se abrisse os braços, tocaria as paredes de pedra de ambos os lados.

Pouco tinha ali, porque pouco cabia.

Apenas uma cama de raízes mortas, um saco de roupas surradas e a faca que roubara do pai.

Sua bexiga ardia. Sem banheiro, Hakien arrastou-se para fora do buraco e parou à beira de uma fissura abissal. Seus pés mal cabiam na borda estreita, mas mesmo assim, aliviou-se no vazio negro abaixo.

Olhando para o outro lado da fenda, ele avistou a familiar favela de pedra onde milhares de habitações eram esculpidas umas sobre as outras. Não buracos escuros como o dele, mas casas com janelas, varandas e famílias.

Hakien fechou os olhos, seu corpo clamava para voltar ao escuro, sem perceber, sua cabeça abaixou e seus ombros seguiram deslizando em direção à queda.

Uma pancada de tambor o despertou, mas seu corpo já estava começando a cair. Sem tempo para pensar ele sentiu a dor antes de entender que tinha quebrado suas unhas ao fincar seus dedos nas pedras brutas da entrada.

O sono deu lugar a um sentimento de desprezo e indignação.

O Primeiro Sino ainda não havia tocado.

O maldito barulho que nunca parava, que não deixava ele dormir, pensar, viver. Ou mesmo morrer como agora.

Era uma tortura intermitente que existia na presença, mas que vinha lhe perturbar também nos dias de silêncio, na expectativa que sua paz seria mais uma vez roubada.

Estava tão cansado... tão exausto da vida... que ao fitar as profundezas abaixo não mais ele via um perigo.

Mas sim um bem-vindo refúgio.

Uma curta viagem para longe do barulho, dos Ratos, da proposta amaldiçoada de Schadenmor.

"Não foi um sonho."

Falou para si mesmo.

Um riso rouco.

Do outro lado da fenda, um Rato velho lhe observava do fundo de uma sacada mais baixa.

Não importava a hora ou o dia... o velho estava sempre lá. Sempre à procura de nada.

Hakien se ergueu na fresta, virando o rosto do velho e apontando seu focinho para cima, à procura do céu amarelo, do sol laranja que ele só conhecia de ouvir falar.

Sua favela era número 13, baixa demais para ver a luz. Num dia perfeito, o máximo que ele já tinha visto foi um reflexo pálido de luz.

Aqui reinavam as trevas, com apenas Besouros de Fogo e Fungos de Ara luminosos para desafiar a escuridão.

"Hoje vai ser meu último dia no escuro."

Hakien deu um longo suspiro, entrou em seu buraco-lar, pegou sua capa negra, cheia de rasgos e furos, escondeu a faca nas costas e então saiu para escalar as pedras íngremes da fenda.

A subida era estreita e perigosa, mas o tempo a tornara apenas uma rotina banal.

Quando alcançou a faixa, deparou-se com o baile. Com a multidão de Ratos seminus que tomava a caverna de parede a parede, vestindo apenas tangapés de fibra de fungo. Todos com os pelos pintados com as cores ardentes de seu Orksha.

Festejavam sob uma abóbada rochosa coberta de estalactites. Usando um robe negro, um musculoso Rato estava no centro, num trono carregado pelos foliões, com uma máscara redonda, que brilhava nas vibrantes cores de vermelho e rosa.

O baile dos Orkshas: milhares de Ratos pintados sob as estalactites e o Roda-Morta no trono, com a máscara da Euforia.

Com um leve sorriso, Hakien imaginou as estalactites caindo sobre os foliões e sobre o Roda-Morta que vestia a máscara do Deus Orksha da Euforia. Quando nada aconteceu, ele soltou um doloroso suspiro de frustração.

Não havia outro caminho.

Ele teria que passar pelo meio dos malditos Ratos.

Não havia espaço entre eles. Os Ratos machos se esfregavam nas fêmeas, dançando, trocando de par, misturando as cores suadas e sujas dos corpos. Eram muitos, mas pareciam ser um.

Hakien atravessou o redemoinho... o redemoinho de Ratos, de sons, cheiros e insuportável calor.

Na periferia da festa, quando finalmente estava para ficar livre da multidão, alguém segurou seu braço, lhe trazendo de volta ao caos.

"Vai me deixar sozinha?"

Era uma jovem Rata, pequena e delicada. Seu rosto, pintado, emoldurava um sorriso travesso, enquanto os longos cabelos dourados, reluzindo no escuro da caverna, desciam em cachos sobre ombros nus. Os olhos azuis, penetrantes e vivos, completavam sua expressão de beldade maliciosa.

Quanto mais belas, mais elas vão te machucar.

Seu pai lhe disse mais de uma vez.

A jovem Rata de cabelos dourados segura o braço de Hakien na borda da festa.

"Me solta." Hakien falou baixo, incerto de sua convicção.

"O que você falou?" Ela gritou por cima do barulho do baile, aproximando o rosto. "Fala mais alto!"

Ele puxou o braço. "Eu falei me solta."

A bela jovem Rata fez uma careta de surpresa. "Não cresce em mim não, cria, assim eu te arranho de alegria."

O que ela quis dizer com isso?

"Eu te vejo apertando o passo." Ela picou. "Você me vê também, mas nunca para, sempre na pressa."

Hakien avistou ela várias vezes, nunca lhe ocorreu que ela prestava atenção nele também.

"Eu tenho que ir."

"Mentira." Ela respondeu com um sorriso. "Eu sei o que você quer, cria. Tá indo pro lado errado."

"Todo lugar é o lado errado aqui."

Ela estendeu as duas mãos. "Você diz isso porque ainda não dançou comigo."

"Por que hoje?"

"O quê?" Ela gritou ainda com os braços estendidos.

"De todos os dias, por que hoje você escolheu falar comigo?"

Sem graça, ela baixou os braços. "Que diferença faz?"

"Qual o seu nome?"

"Trina."

"Adeus, Trina."

Hakien virou as costas, ignorando os olhares que se acumulavam à sua volta.

"Você prefere morrer?" Trina gritou. "Você prefere morrer a dançar comigo?"

Isso é uma ameaça ou um aviso?

Ele andou de volta, ficando ainda mais próximo que antes. "O que você quer dizer com isso?"

"Você vai caçar o Bilhete Dourado."

"Como você sabe do Bilhete Dourado?"

Trina fez uma careta com a língua de fora. "Todo mundo foi convidado. E quem não foi tá indo atrás de quem foi. Estão todos indo para a Estação das Gaiolas, estão fazendo fila para jogar a vida deles fora." Ela olhou à volta. "É por isso que estamos fazendo o baile, para salvar vidas."

"O que te importa?" Hakien franziu o focinho. "O que te importa o que os outros fazem, o que te importa onde eu vou ou não?"

"Meu irmão." O sorriso de Trina se escondeu, seus olhos azuis se perderam no vazio. "Ele prometeu que nos tiraria daqui. Que acharia o bilhete. Que tudo ficaria melhor. Mas quando ele não voltou..." A voz dela falhou. Ela não conseguiu terminar.

"Eu não estou atrás do Bilhete Dourado."

"Você me disse adeus."

"Eu não vou voltar."

"Você teve o sonho?"

Hakien deu um leve aceno.

Trina deu um sorriso triste.

"Você pertence a ele então."

"Não, eu não pertenço a ninguém."

Hakien deu alguns passos para trás, seus olhos cinzas atados aos azuis dela.

"Eu espero que você morra." Ela falou com lágrimas.

Todos ao redor tinham parado de dançar, a música ainda tocava, mas o ritmo aqui era outro. Quebrado.

Hakien deu as costas para Trina uma última vez.

E caminhou para longe do barulho, da favela, do seu lar nos últimos anos.

Por dentro, seu peito batia em euforia, não pelo que deixava para trás, mas pelo que estava por vir.

Hakien vai embora sozinho, e atrás dele a grandiosidade da caverna, a favela e milhares de Ratos.
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Os tambores não param.

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Hakien saindo do seu buraco na rocha, à beira da fissura abissal, diante da favela de pedra.O baile dos Orkshas: milhares de Ratos pintados sob as estalactites e o Roda-Morta no trono, com a máscara da Euforia.A jovem Rata de cabelos dourados segura o braço de Hakien na borda da festa.Hakien vai embora sozinho, e atrás dele a grandiosidade da caverna, a favela e milhares de Ratos.