O Menino Rato franziu o focinho. Mantinha o semblante sério e a postura firme. Os olhos cinza gelo radiavam orgulho, embora uma lágrima solitária descesse pelo rosto de apenas sete anos.
"Se você não me ajudar, ela vai embora." Ele falou com a voz amarga. "Sem ela, eu morro."
Pequeno, de pelos pálidos e cabelos brancos, ele se encontrava no âmago de névoas negras que rodopiavam ao seu redor como um redemoinho de escuridão. Ao longe, fazia-se notar o sussurro tênue de tambores.
"Você vai viver, pequeno Hakien."
A voz que atravessou as trevas era madura e feminina. Suas palavras lentas transbordavam um afeto cansado.
"Vai viver primeiro apesar da dor. Depois... vai viver por ela."
"Eu não quero", respondeu Hakien, agressivo. "Eu quero que você a faça ficar. Você é uma deusa. Você tem o poder de me salvar."
Uma máscara colossal emergiu da névoa. Era esculpida em madeira branca, de bordas arredondadas e coberta por raízes negras. A máscara deusa sorria pelo corte oco de seus lábios. Acima dos olhos vazios, pétalas coloridas teciam uma coroa de flores murchas.
"Eu sou a Esperança", disse a máscara deusa. "Sou a semente do seu agora. Alimente-me, adore-me, siga-me... e florescerei na eternidade de todos os dias que virão."

"Ela vai partir amanhã."
"O corpo dela se despede amanhã. Mas o laço que unia vocês... esse ela rompeu muito antes."
"Não, não..." As palavras saíram fracas, na voz de uma criança assustada. "E se eu for bom? Se eu for bom, você vai me dar o que eu quero?"
"Ninguém pode lhe dar a escolha que pertence a outro."
"EU PRECISO DELA."
"Sua mãe se perdeu."
A máscara gigante inclinou-se sobre o Menino Rato, cobrindo de sombras seus pelos brancos.
"Entregue-se a mim. Seja meu, e plantarei um jardim de luz nos vales escuros da sua agonia."
O Menino Rato caiu de joelhos. As lágrimas agora escorriam sem controle. Havia alívio naquela dor. Por um instante, nada mais importava. Nem orgulho, nem vergonha, nem a vontade de lutar. Ainda assim, no vazio do peito, ele encontrou um último pedido.
"Então... eu quero morrer", sussurrou.
Das suas costas, uma enxurrada de luz inundou o salão escuro. Quando o brilho intenso tocou a máscara deusa, a madeira branca se pulverizou numa chuva de faíscas incandescentes.
O Menino Rato levantou-se para enfrentar a luz. Seu manto ardeu em chamas. Os pelos queimaram, e a pele enrugou numa crosta negra, sem vida. A silhueta carbonizada rachou, derramando fagulhas e cinzas pelo ar.
Entretanto, enquanto seu exterior ruía, seu interior paradoxalmente se expandia. Quando o semblante negro da criança se partiu, outro rosto revelou-se em suas entranhas. Maxilar mais largo, cabelos mais longos e os mesmos olhos cinza gelo. No lugar do brilho pálido da tristeza, porém, ardia uma chama fria de hostilidade.
Quando a luz consumiu a última cinza, a criança se esvaiu. Em seu lugar havia um jovem de dezesseis anos, mais alto, mais forte, envolto em um maltrapilho manto negro.
O jovem Hakien não fechou os olhos para a claridade incômoda. Forçou-se a confrontar o vazio que carregava. No coração da luz, uma silhueta negra erguia-se. Uma figura masculina, musculosa, de orelhas aculeadas e longas asas escuras.
O ser de sombras era o avesso da luz. Suas trevas eram chama. O brilho branco que delas aflorava era mero reflexo da própria escuridão.
Sem boca nem olhos, ele fitou Hakien pelo inclinar de seu semblante ausente. O Jovem Rato não pareceu impressionado. Deu de ombros, com uma expressão de escárnio e tédio.
"A Esperança é a mais cruel das deusas", disse o ser de sombras, sem voz. "Ela acorrenta você à promessa de um amanhã que nunca chega... sabendo que, sem ela, poucos suportariam o peso do hoje."
A voz não vinha da aparição. Ressoava das profundezas de Hakien, um pensamento intruso impossível de calar.
"Num mundo onde crianças choram, o perigo não são os deuses que as ignoram", a voz negra ecoou, serena e cáustica. "São os que respondem às suas preces."
"Deixa eu adivinhar", Hakien franziu o focinho, com asco. "Você é um deus diferente dos outros. Só você tem o poder de realizar todos os meus desejos?"
"Não todos."
O dedo de sombras fez um gesto displicente e, então, apontou para cima, teatral.
"Apenas um."
"Eu não acredito mais em deuses."
"E nem deveria. Deuses são parasitas da atenção. Alimentam-se da sua obediência, roubam sua individualidade e, no fim, ainda culpam você pelo fracasso das próprias imposições."
O silêncio pesou no ar.
"Eu desprezo suas preces e renuncio à sua submissão. Ame-me, odeie-me ou ignore-me. Pouco me importa. Não venho com promessas vazias. Trago presentes e oportunidades que nenhum deus jamais lhe ofereceria."
"Você não tem nada que eu queira."
A figura estendeu uma mão de trevas. Entre os dedos longos e afiados, segurava um pequeno cupom de ouro.
"Eu tenho o Bilhete Dourado."
As orelhas de Hakien se ergueram.
"Você é Schadenmor?"
A sombra inclinou-se numa reverência teatral.
"Ao seu dispor."

"Eu pensei que fosse mentira. Tantas pessoas juraram que você apareceu para elas... como pode estar em tantos lugares ao mesmo tempo?"
"Nas profundezas do abismo, somos unidos por tudo aquilo que queremos, mas não podemos ter."
"É para isso que serve o Bilhete Dourado? Você vai me dar o que eu não posso ter?"
"O bilhete é a oportunidade", Schadenmor assentiu. "Aquela que todos querem, mas nunca encontram. É aquilo que falta. Aquilo de que você precisa para que a sua verdadeira vida possa finalmente começar."
"Você está descrevendo uma fantasia."
"Sim. É uma fantasia."
O pequeno cupom reluziu num amarelo incandescente.
"Mas o bilhete está em seu mundo, ao seu alcance, à sua espera. Se você o encontrar e o rasgar, tornando-o seu, poderá manifestar sua fantasia na realidade."
Hakien esboçou um sorriso torto.
"Quantos bilhetes são?"
"O Pináculo de Schadenmor ascende do abismo a cada cinco anos, oferecendo a cada uma das Cinco Nações de Morserus cinco Bilhetes Dourados. Serão vinte e cinco convidados, vinte e cinco competidores que escalarão seus andares e enfrentarão provações... até que apenas um alcance o cume, onde estarei de braços abertos para celebrar sua vitória."
"Então seu bilhete não vale nada."
"Não para o vencedor. Para o vencedor, ele vale mais que tudo e todos."
Hakien estreitou os olhos cinza.
"Se você tem um bilhete, sua chance de ganhar é uma em vinte e cinco. Mas, quando não se tem bilhete... quando há cinco por nação, a nação dos Ratos tem milhões de habitantes e milhares vão procurar a mesma coisa... que chance é essa?"
"Não é uma loteria", Schadenmor abriu os braços. "É um jogo. Em um jogo, não vence quem tem mais sorte. Vence quem for melhor do que todos os outros."
"E quem não for o melhor? O que acontece com os otários que acreditam em você e despencam dos Poços Fundos? Que se perdem na Floresta de Esporos? Você tem ideia de quantos Ratos morreram da última vez que escondeu seus bilhetes em Kazil? Você se importa com o que acontece aos que perdem?"
"Ninguém se importa com quem perde."
"Isso lhe parece justo?"
Os tambores suaves ao fundo ganharam força e cadência.
"Justo?" Schadenmor fechou as asas escuras. "Se um Rato quiser roubar o seu futuro, diga-me. O que seria justo? Matar ou morrer?"
"Matar."
"A justiça de um é a injustiça do outro."
As sombras de Schadenmor pulsaram, mais intensas.
"Imagine que o Bilhete Dourado já é seu, mas todos querem aquilo que lhe pertence."
"Eu não quero brincar no seu jogo", disse Hakien, sorrindo. "Não vale o risco."
"Ninguém arrisca a vida pelos jogos. São os espólios que trazem meus competidores até mim."
Hakien inclinou a cabeça. Queria recusar, mas as próprias palavras traíram sua curiosidade.
"Que tipo de espólios?"
"São três prêmios gloriosos. O primeiro pertence à nação. A nação vencedora receberá quatro anos de riqueza e prosperidade."
Hakien soltou um riso seco.
"Eu não poderia me importar menos com a prosperidade de uma Nação de Ratos."
"Justo."
As orelhas aculeadas de Schadenmor se moveram num leve aceno.
"O segundo prêmio, então, talvez fale mais fundo ao seu coração. Ao vencedor será concedido o status mais alto de Morserus. A inveja da elite, a idolatria da plebe e o medo silencioso dos poderosos. O título lendário de Ser Supremo."
Hakien deu de ombros.
"Como se eu me importasse com o que um mundo podre e injusto pensa sobre mim."
"Muito bem. Guardei o melhor para o final."
Schadenmor se inclinou sobre Hakien.
"No mirante do Pináculo, entre balaústres de marfim, repousa o Livro dos Desejos. Velho como o mundo, vasto como os sonhos. Em suas páginas dormem todos os anseios, pedidos e milagres que a realidade se recusa a conceder. Encontre ali o eco da sua vontade. Leia-o em voz alta... e testemunhe o vazio que o consome ser preenchido com tudo o que sempre lhe foi negado."
Hakien pensou no que desejaria, mas então abanou o focinho e fitou o ser de sombras.
"E se eu fizer tudo isso, matar e morrer no seu jogo, só para não encontrar o que quero nas páginas do livro?"
"Tudo que falta pode ser encontrado no Livro dos Desejos."
Hakien deu de ombros.
Schadenmor afastou-se, como se desistisse e fosse embora. Então se virou, e seus ecos falaram nas profundezas do Jovem Rato.
"Você quer sua mãe de volta?"
A voz vazia ardeu no peito de Hakien.
"Você a quer feliz e orgulhosa da sua vitória, fingindo que seu abandono nunca aconteceu?"
Hakien deu um passo para trás.
"Ou talvez a prefira em lágrimas. Arrependida, suplicando pelo seu perdão, carregando em seu lugar a dor que deixou em você."
"Não", disse Hakien, num meio grito. "Não."
"Tudo está no meu Livro dos Desejos. Sejam as súplicas de uma criança inocente ou as exigências de um jovem amargurado, não importa a forma do seu vazio. Há muitos capítulos para a sua dor."
Hakien rosnou baixo e avançou um passo.
"A criança que queria ela de volta não existe mais. Você acha que me entende, que pode me manipular, mas não me enxerga. Eu não quero minha mãe. Não quero os deuses Orkshas. Não quero esse mundo de Ratos que me cerca. Tampouco quero seu Bilhete Dourado."
Ele inspirou fundo, contendo a violência das próprias palavras.
"Eu quero um mundo onde nenhum de vocês exista. Um lugar tão distante, tão silencioso, que nem a memória de vocês possa me alcançar."
O ser de trevas se aproximou, alto sobre o Jovem Rato.
"Se essa for a verdade do que você realmente quer, então exulte. Isso também está no ápice do Pináculo de Schadenmor."
"É tentador. Não vou mentir."
"Eu sempre soube que você diria sim."
Hakien soltou uma pequena risada.
"Minha resposta é não."
"Do seu primeiro ao último suspiro", Schadenmor pousou uma mão de trevas sobre o rosto de Hakien, "você nunca encontrará o que procura sem mim."
"Eu não preciso de você. Não preciso de ninguém."
Hakien golpeou a mão, dispersando as sombras que o tocavam.
"Tenho meu plano. Estou no comando do meu destino."
"E se eu lhe contar um segredo?"
O braço de Schadenmor sangrou luz e se refez nas chamas da própria escuridão.
"E se eu disser que você é diferente de todos os outros participantes?"
"Diferente como?"
Os tambores começaram a crescer. Batidas secas, distantes, mas perturbadoras em sua harmonia crua. Hakien franziu o focinho e fitou Schadenmor.
"O que você diria se eu lhe dissesse que está destinado a encontrar o Bilhete Premiado?"
"Eu diria que você está trapaceando."
"De forma alguma. Eu apenas sempre tive o poder de reconhecer o vencedor."
Hakien não sabia o que dizer. As batidas aumentaram. Seu peito também batia mais forte. Ele queria acreditar, mas querer acreditar era uma armadilha.
"Você está tentando me enganar", disse, sério.
"O que seu coração lhe diz? Este é apenas um jogo como qualquer outro? Ou esse jogo foi criado especialmente para você, para que prove ao mundo o seu verdadeiro valor?"
As batidas dos tambores se intensificaram. Agora Hakien ouvia a euforia carnavalesca de uma multidão.
"Que barulho é esse?"
"Esse é o mundo que você recusa, à sua espera."
"Faça-os parar."
"Eles nunca vão parar. A única forma de calar seu mundo é encontrando o seu Bilhete Dourado."
"NÃO. EU JÁ LHE DISSE NÃO."
"Posso provar que você é o escolhido." Os ecos de Schadenmor quase não podiam ser ouvidos sobre a festa alucinante de tambores. "Vou lhe dizer onde escondi o seu Bilhete Dourado."
"NÃO."
Hakien tapou os ouvidos.
Schadenmor lhe disse alguma coisa, mas a voz interior não tinha a força das batidas, agora ensurdecedoras. Por toda parte, na escuridão e na luz, até o chão tremia diante da euforia louca.
Junto aos tambores vinham gritos de alegria e uma voz de trovão, proferindo palavras que ele não conseguia entender. Hakien reconhecia aquele som maldito. Era uma festa. Uma festa dos Orkshas.
A sombra de Schadenmor tremeu diante da invasão daquilo que ali não deveria existir. A cada batida, extinguia-se um pouco mais. Quando as chamas de suas trevas se dispersaram, as sombras de luz também se apagaram.
Hakien encontrou-se sozinho no vazio da escuridão.
As batidas, entretanto, continuaram a crescer.
"Não", disse, em agonia. "Parem com esse maldito som."
Então a escuridão se partiu.
Mas os malditos tambores continuavam a tocar.








